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DRAMATURGOS DA GERAÇÃO ANOS 90 – SAMIR YAZBEK

por Silvana Garcia

 

Ao longo dos anos 90, a produção dramatúrgica na cidade de São Paulo começou a ganhar novo alento. Uma nova geração de autores, não necessariamente jovens ou inexperientes, começou a fazer-se notar, geralmente associada a experiências cênicas no circuito mais alternativo. Em comum, esses autores têm a idade acima dos 30 anos, uma adesão ao ofício de escritor que não os restringe ao teatro e personalidade estilística bem desenvolvida. No mais, todo o resto são diferenças. Não há grandes traços de semelhança formal que os aproxime, como tampouco os motivos e temas abordados por cada um encontra necessariamente eco na produção dos outros. O que permite inseri-los todos sob o rótulo de "Geração 90" é principalmente o fato de que suas produções começaram a aparecer nos palcos nessa década, mais ou menos no mesmo período, distinguindo-os da produção rarefeita dos anos 80, quando mais que a dramaturgia teve destaque o trabalho dos encenadores (muitos deles realizando sua própria dramaturgia na cena).

Ter destaque no cenário teatral da cidade de São Paulo não é pouco, se considerarmos que a produção de peças, a cada temporada, alcança a cifra de uma centena. Dessa quantidade, boa parcela introduz novos dramaturgos, reforçando uma tendência do momento: cada vez mais os jovens que se aventuram no teatro pretendem fazê-lo com textos próprios, independente de serem, ou não, considerados dramaturgos. Isto quer dizer que os grupos iniciantes, antes de buscarem textos consagrados da dramaturgia nacional ou estrangeira, investem em suas próprias tentativas literárias – lamentavelmente, no geral, muito incipientes, – buscando afirmar-se como identidades expressivas. (Certamente há o fator econômico – redução nos gastos com direitos autorais, adequação da dramaturgia à realidade do grupo no que concerne ao número de atores/personagens, por exemplo -, mas há aí também um traço da idiossincrasia de nosso tempo: a urgência de expressar-se sobrepondo-se ao desenvolvimento artístico e à necessidade da comunicação.)

Os dramaturgos aos quais estamos referindo-nos, entretanto, são profissionais do ofício, escrevendo por motivação própria, mas também aceitando convites de grupos ou diretores. Nestes casos, eles se aproximam e até integram por um tempo o projeto coletivo, às vezes produzindo mais de um trabalho, para, em seguida, voltarem à condição free-lancer. Este é o caso de Fernando Bonassi, por exemplo, que atuou com o grupo Teatro da Vertigem, sob direção de Antônio Araújo, no extraordinário Apocalipse 1,11, o espetáculo mais premiado na temporada passada. Ou Aimar Labaki, que já produz o segundo texto para a diretora Débora Dubois: o primeiro, Piratas na Linha foi sucesso absoluto e levou todos os prêmios de teatro juvenil no ano passado em São Paulo. Atualmente, estréia Motor Boy, também dedicado a esse mesmo segmento de público.

O mais novo dessa geração também começou sua carreira arrematando prêmio, no caso, o Prêmio Shell de Dramaturgia, em 1999. Samir Yazbek estava completando trinta anos quando escreveu e produziu O Fingidor, seu segundo trabalho a vir a público. Foi um espetáculo de produção discreta, com bons intérpretes, e que, sem grande destaque na imprensa apesar da simpatia do público, acabou redundando – como muitíssimos outros casos, situação corriqueira no nosso mercado – em uma boa soma de dívidas para o autor, que foi também diretor e produtor do espetáculo. (A peça acabou merecendo uma segunda temporada, que se encerrou há pouco, e, desta vez, teve o reconhecimento que lhe era devido. Também seu texto sairá publicado em breve pela Editora Hucitec.)

 

O Fingidor tem uma fábula singela porém engenhosa: Fernando Pessoa, o poeta português, sob o disfarce de um certo Jorge Madeira, emprega-se como datilógrafo na casa de um importante crítico literário que está empenhado em escrever um substancioso ensaio sobre a poesia de... Fernando Pessoa. Assim, Pessoa/Madeira passa a limpo o texto do crítico que tem por objeto sua obra poética. O crítico, que não conhece o poeta pessoalmente, nem de longe desconfia da dupla identidade de seu datilógrado. Quem sabe e desaprova a farsa é a irmã de Pessoa, Henriqueta e, mais tarde, a empregada do crítico, Amália, com quem Pessoa/Madeira apenas ensaia um romance. Acompanhando tudo e interferindo às vezes com seus comentários estão os seus mais famosos heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Nos momentos de recolhimento, são eles que amparam o poeta.

Em O Fingidor – inspirada evidentemente no poema "Autopsicografia", de Fernando Pessoa -, os elementos biográficos, ainda que presentes, não são os mais importantes. Embora com lógica ficcional, o Fernando Pessoa/Jorge Madeira de Samir Yazbek presta-se a um enredo que tem como fundo a busca poética do homem por si mesmo. No jogo farsesco que trava com o crítico – que se considera um especialista na obra do poeta, mas não reconhece um poema seu quando quem o apresenta é o "datilógrafo" Madeira -, no embate com seus heterônimos, ou quando insinua seu afeto por Amália, Pessoa é apenas um homem sensível que se debate com suas angústias e a presença próxima da morte.

O texto de Yazbek é delicado, povoado de referências poética e personagens consistentes. No panorama da geração 90, ele ocupa discretamente seu lugar, com uma produção bissexta, ainda tímida, mas que poderíamos certamente reputar das mais originais. Professor universitário, familiarizado com a escrita desde muito jovem, passou pela escola do encenador Antunes Filho antes de se profissionalizar como dramaturgo. Ainda não vive exclusivamente de seu ofício, continuando a dar aulas de teatro e workshops de dramaturgia, mas tem como objetivo dedicar-se cada vez mais ao texto dramático, que o reaproxima da filosofia e da ciência (na sua época de estudante universitário, chegou a cursar as Faculdades de Filosofia e de Física). Aí, diz ele, busca inspiração para seu trabalho,

com o intuito de distorcer a realidade cotidiana, não para alienar-me, mas para pintar com tintas mais fortes os dramas que enxergo na vida das pessoas e na minha própria. A busca por estruturas exatas e bem arquitetadas ajudou a materializar esse projeto de representação do real. Atento ao risco de falar mais de mim do que dos outros, sinto que sempre busco em meus dilemas a chave para continuar a escrever. Enfim, necessidade de expressar e comunicar aquilo que me perturba e inquieta como pessoa.

Tudo isso para que o público, último elo dessa cadeia, beneficie-se desse mergulho à medida que se identifique com o universo representado, para, se não melhorar de vida, no mínimo lembrar-se de que está vivo, e perguntar-se, colocando-se em movimento, o que isso significa.

(Samir Yazbek, de texto oferecido à autora deste artigo)

Agora Yazbek prepara-se para uma nova estréia. Sua mais recente peça chama-se A Terra Prometida, um ato único para dois atores. Assentada no terreno bíblico, tendo Moisés e seu sobrinho Itamar por protagonistas, a peça assemelha-se a um debate filosófico que tem por tema aparente o embate entre o patriarca e o jovem em relação à Terra Prometida. No entanto, como em O Fingidor, importam menos os aspectos factuais da fábula e mais aquilo que emerge sob esse pretexto. Em A Terra Prometida – uma leitura possível -, temos o confronto entre a fé, a tradição, a manutenção de princípios e a necessidade de novos caminhos, o livre-arbítrio, o hedonismo contemporâneo.

Quem dirige o texto é Luiz Arthur Nunes, diretor do Rio de Janeiro, respeitado pelos inúmeros e importantes trabalhos realizados e um estudioso especialista da obra de Nelson Rodrigues. No elenco, dois atores que têm estado comprometidos com espetáculos de maior ousadia cênica: Luíz Damasceno, que atua há anos na Companhia Ópera Seca, de Gerald Thomas, e Marco Antônio Pâmio, que recentemente protagonizou um espetáculo de grande sucesso na temporada, Pobre Superhomem, de Brad Fraser, sob direção de Sérgio Ferrara.

 

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AÑO   1     N°  2  -  Octubre 2001

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